segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Para mudar é preciso...mudar


A desfaçatez na política brasileira é um verdadeiro acinte aos eleitores e às pessoas que efetivamente desejam o bem deste País. Na busca pelo poder, todos - partidos, candidatos e eleitores - não medem esforços para sobressair aos adversários. Fazem alianças espúrias, digladiam-se a ponto de cometerem injustiças, descumprem regras de convivência, afrontam a legalidade e, se pudessem, venderiam a alma ao diabo na busca do objetivo maior: o poder e as sinecuras que dele advêm.
Miúdo modo, esse é um retrato da política brasileira. O currículo, a vida pregressa, a ficha policial e as divergências ideológicas pouco importam na consecução de aliados e de objetivos eleitoreiros.
Vejam o que temos agora na cidade de São Paulo: dois partidos, PT e PSDB, que vão disputar a preferência do eleitor no segundo turno das eleições municipais, buscando composições com ninguém menos que o demonizado Celso Russomanno. 
No primeiro turno, Serra e Haddad, representantes de dois grandes partidos que polarizam a cena política nacional há tempos, utilizaram todo tipo de expediente na tentativa de desconstruir a imagem do adversário que estava na primeira colocação nas pesquisas. Pegaram pesado com o cara, inclusive, como é costume, apelando para questões pessoais e de foro íntimo. Qualquer desavisado entenderia que as propostas de um em relação às do outro são completamente antagônicas, e que por isso qualquer tipo de composição entre tais adversários seria totalmente inviável.
Eis que chega o segundo turno das eleições e tanto Serra como Haddad cortejam Russomanno em busca dos seus votos para, em última análise, “derrotarem um mal maior”, já que assim que se colocam diante do eleitor. Mas onde ficam os princípios? A tão propalada ética? O respeito ao eleitor? E todos os defeitos que Russomanno tinha antes? Pois bem, ficam na latrina, no lixo, já que em nome de vitória e do poder tudo vale.
E é ai que tem início a formação de um quadro tenebroso que domina a política brasileira com a tal “governabilidade”, pois, quando eleitos, seja Serra ou Haddad, em retribuição ao apoio do até então imprestável adversário, que passou à condição de aliado, provavelmente lhe oferecerão alguma coisa em troca por esse apoio, como uma secretaria ou uma subprefeitura.
Então, nesse momento o eleitor interessado em participar da política escolhendo aquele que julga ser o melhor candidato, inclusive, e já que está na moda, o que tem a ficha limpa, se vê como um idiota, um bobalhão, assistindo o seu candidato fazer alianças com aqueles que na hora da disputa e do voto eram classificados da pior maneira possível.
É obvio que muitos eleitores, talvez a maioria deles, não pensem dessa forma e até têm uma ordem de preferência – Meu voto é do Russomanno, mas se ele não passar para o segundo turno eu voto no Haddad – mas e o eleitor que se deixou influenciar pelas propagandas, como é que fica? Fica com asco da política e dela se afasta cada vez mais, o que é lamentável para um povo extremamente carente de bons votantes e votados.
Por isso, por uma simples questão de coerência, de respeito aos seus eleitores, e na tentativa de mudar a forma de fazer política neste país (as coisas efetivamente mudam com a prática e não apenas com as palavras), eu sugeriria a Haddad e a Serra que publicamente recusassem o apoio de Russomanno, já que na visão deles esse cidadão é um aventureiro irresponsável, e que solicitassem votos diretamente àqueles que nele votaram, sem que houvesse a necessidade de acordos e dessa danosa governabilidade que produz “mensalões” Brasil afora.

PS.: Não me tomem como ingênuo, pois sei bem que temos partidos que seguem a cartilha gramsciana e cujo projeto de poder é utilizar os mecanismos hoje oferecidos - sejam eles institucionais ou não, publicáveis ou não - para a construção de uma nova sociedade baseada em modelos ultrapassados e fracassados, o que, para mim, também é lamentável.


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