A desfaçatez na política brasileira é um verdadeiro acinte aos
eleitores e às pessoas que efetivamente desejam o bem deste País. Na busca pelo
poder, todos - partidos, candidatos e eleitores - não medem esforços para
sobressair aos adversários. Fazem alianças espúrias, digladiam-se a ponto de
cometerem injustiças, descumprem regras de convivência, afrontam a legalidade
e, se pudessem, venderiam a alma ao diabo na busca do objetivo maior: o poder e
as sinecuras que dele advêm.
Miúdo modo, esse é um retrato da política brasileira. O
currículo, a vida pregressa, a ficha policial e as divergências ideológicas
pouco importam na consecução de aliados e de objetivos eleitoreiros.
Vejam o que temos agora na cidade de São Paulo: dois
partidos, PT e PSDB, que vão disputar a preferência do eleitor no segundo turno
das eleições municipais, buscando composições com ninguém menos que o
demonizado Celso Russomanno.
No primeiro turno, Serra e Haddad, representantes de dois
grandes partidos que polarizam a cena política nacional há tempos, utilizaram
todo tipo de expediente na tentativa de desconstruir a imagem do adversário que
estava na primeira colocação nas pesquisas. Pegaram pesado com o cara,
inclusive, como é costume, apelando para questões pessoais e de foro íntimo.
Qualquer desavisado entenderia que as propostas de um em relação às do outro
são completamente antagônicas, e que por isso qualquer tipo de composição entre
tais adversários seria totalmente inviável.
Eis que chega o segundo turno das eleições e tanto Serra
como Haddad cortejam Russomanno em busca dos seus votos para, em última
análise, “derrotarem um mal maior”, já que assim que se colocam diante do
eleitor. Mas onde ficam os princípios? A tão propalada ética? O respeito ao
eleitor? E todos os defeitos que Russomanno tinha antes? Pois bem, ficam na
latrina, no lixo, já que em nome de vitória e do poder tudo vale.
E é ai que tem início a formação de um quadro tenebroso que
domina a política brasileira com a tal “governabilidade”, pois, quando eleitos,
seja Serra ou Haddad, em retribuição ao apoio do até então imprestável
adversário, que passou à condição de aliado, provavelmente lhe oferecerão
alguma coisa em troca por esse apoio, como uma secretaria ou uma subprefeitura.
Então, nesse momento o eleitor interessado em participar da
política escolhendo aquele que julga ser o melhor candidato, inclusive, e já
que está na moda, o que tem a ficha limpa, se vê como um idiota, um bobalhão, assistindo
o seu candidato fazer alianças com aqueles que na hora da disputa e do voto
eram classificados da pior maneira possível.
É obvio que muitos eleitores, talvez a maioria deles, não
pensem dessa forma e até têm uma ordem de preferência – Meu voto é do
Russomanno, mas se ele não passar para o segundo turno eu voto no Haddad – mas
e o eleitor que se deixou influenciar pelas propagandas, como é que fica? Fica
com asco da política e dela se afasta cada vez mais, o que é lamentável para um
povo extremamente carente de bons votantes e votados.
Por isso, por uma simples questão de coerência, de respeito aos
seus eleitores, e na tentativa de mudar a forma de fazer política neste país
(as coisas efetivamente mudam com a prática e não apenas com as palavras), eu
sugeriria a Haddad e a Serra que publicamente recusassem o apoio de Russomanno,
já que na visão deles esse cidadão é um aventureiro irresponsável, e que
solicitassem votos diretamente àqueles que nele votaram, sem que houvesse a
necessidade de acordos e dessa danosa governabilidade que produz “mensalões”
Brasil afora.
PS.: Não me tomem como ingênuo, pois sei bem que temos
partidos que seguem a cartilha gramsciana e cujo projeto de poder é utilizar os
mecanismos hoje oferecidos - sejam eles institucionais ou não, publicáveis ou
não - para a construção de uma nova sociedade baseada em modelos ultrapassados
e fracassados, o que, para mim, também é lamentável.
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